quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Vento quente

Era uma tarde quente e seca como muitas outras no oriente, mas Liz não estava tão acostumada assim, porém já se sentia familiarizada com o clima e as pessoas de  Amã.
Não todas as pessoas, mas aquelas que se encontravam próximas à sua cela.
Fora há mais ou menos uns dois meses quando um hummer interceptou o comboio de jornalistas que iam para Jerusalém cobrir um atentado à bomba que acontecera na noite anterior.
Era a primeira vez de Liz no oriente médio, sempre cobrira reportagens sobre os conflitos árabes em seu país.
Ela já sabia dos riscos e seu chefe a mandara para Amã, um lugar de estabilidade para acordos econômicos e políticos entre os países do ocidente.
Portanto mais pacífico e menos tenso, como um ponto neutro até entre Israel e os extremistas.
Mas o que ela não esperava é que teriam rebeldes disfarçados vivendo em Amã e que o governo de Israel com seus aparatos e serviços de inteligência estariam monitorando aeroportos e estrangeiros que chegassem ou pretendiam adentrar em seu país.
Para o governo de Israel todos sem exceção eram suspeitos e Liz não seria diferente.
Foi exatamente numa noite em que o comboio saira em direção a Israel que fora interceptado pelo jipe.
Homens armados, muito bem equipados renderam o motorista e fizeram todos descerem do caminhão, ficarem em pé, com as mãos na cabeça e pernas afastadas.
Liz estava muito nervosa e pensou que fosse morrer ali mesmo. Haviam três mulheres jornalistas no comboio, o restante eram homens.
Os soldados começaram a revistar um por um, falando rispidamente em hebraico, alguns jornalistas falavam hebraico, pois eram judeus que viviam no ocidente .
Mas Liz não tinha sequer idéia do que estavam falando.
-o que eles estão falando?
-Para ficarmos calados e obedecer.
-Vamos morrer?
-Fique calma, soldados israelenses não matam assim.
Depois de revistarem a todos, olharem documentos e pertences fizeram sinal para um caminhão que se aproximava e começaram a empurrar os homens para entrar na carroceria e por último as três mulheres.
Liz ficou por último e relutou em subir, quando um soldado se aproximou empurrando e falando, até que um outro soldado com um semblante de calmaria olhou para ela e fez um sinal para que subisse.
Ela olhou nos olhos daquele homem e como se tivesse consentindo e entendido tudo, subiu no caminhão.
Andaram bastante, já havia amanhecido e estavam num lugar deserto, literalmente, só havia poeira e uma espécie de forte, já estava muito calor naquela hora, quando o caminhão parou e abaixaram a portinhola para os prisioneiros descerem.
Os soldados muito ríspidos e com ar de ironia empurravam as pessoas para dentro.
Era um longo corredor, as celas estavam abertas e eles iam empurrando os homens de dois a dois em cada cela.
As últimas celas colocaram as mulheres, separadas, cada uma sozinha.
Depois de umas duas horas um soldado apareceu dando água para os prisioneiros, quando chegou a vez de Liz ela recusou, o soldado começou a xingá-la e puxou-a pelos cabelos fazendo beber toda a água.
Quando o soldado de olhar calmo, de longe avistou a cena, veio correndo em direção, gritando para que o outro soldado saísse dali.
Ele parou em frente à cela de Liz e ela olhou novamente naqueles olhos negros, e que passava uma tranquilidade sem igual para ela.
Ela agradeceu e ele acenou com a cabeça se retirando.
Liz não estava entendendo nada, não tinha culpa de nada e estava presa no meio do nada, a única coisa que ela percebera era aquele olhar inigualável daquele homem.
A noite chegou e como a temperatura no deserto também cairá, estava muito frio, havia apenas um colchão no chão e Liz estava deitada e encolhida.
O homem apareceu na porta da cela que só tinha um visor e avistou ela deitada e com frio.
Ela o viu, mas não se mexeu, estava muito cansada para qualquer manifestação.
Eles trocaram olhares, como se soubessem o que estavam pensando e logo ele saiu.
Liz sentiu uma coisa muito forte, não tinha explicação para o que era, mas sentia algo muito profundo só de ver aqueles olhos.
Na manhã seguinte ela olhou pelo vão de entrada do ar e avistou um jipe saindo com alguns homens, inclusive aquele homem .
Voltou pra trás e se sentou no colchão, encolhida, de repente ouviu gritos, levantou correndo e foi olhar pela porta, os soldados haviam aberto uma cela e gritavam com dois prisioneiros, um deles estava resistindo e conversando com os soldados, mas logo levou um chute e caiu.
Liz gritou:
-Pare, por favor!
O soldado olhou para o fim do corredor e começou a andar em direção, Liz foi se afastando até que eles chegaram, abriram a cela , entraram e pegaram ela pelos cabelos, ela gritava.
Eles falavam e riam, debochavam dela, até que um disse umas coisas e deu um tapa na cara dela, ela caiu no chão e lá ficou, os soldados saíram rindo e conversando entre si.
Liz chorou muito, não sabia como, nem quando sairia de lá, até que caiu no sono.
Quando o homem chegou, percebeu que algo estranho havia acontecido com ela, pois ela não mudava de posição, nem queria comer, ele entrou na cela dela.
Se aproximou e tocou no seu ombro, ela deu um pulo assustada, ele olhou nos olhos dela e viu uma marca vermelha no rosto, sabia que tinham sido os outros soldados, apenas tocou em seus cabelos com muito cuidado, apenas tirando do rosto, tocou onde estava vermelho, sua mão era grande, forte e ele tinha uma barba muito espessa.
Ela deixou, apenas olhava naqueles olhos como se estivesse pedindo ajuda.
E ele sentia o mesmo, mas também não sabia o que era.
De repente ela se levantou e se aninhou no peito dele, como se quisesse ser protegida, cuidada e amada.
Ele logo se afastou como se soubesse do perigo.
O perigo de se apaixonar.
Ele se levantou e ela também.
Ele ia se retirar, quando numa atitude impulsiva ela deu-lhe um beijo no rosto, ele a empurrou devagar e saiu muito rápido, sem olhar para trás.
Depois desse dia, ele não apareceu mais, ela não conseguiu vê-lo em lugar algum.
A essa altura ela não estava se importando de estar presa, de ser refém dele, mas somente refém dele.
Certo dia um daqueles soldados voltou e entrou na cela de Liz, chegou perto dela e tentou pegá-la a força, ela gritava:
-Saia daqui, não me toque.
O soldado com sua força rendeu suas mãos e jogou-a no chão, subiu em cima dela, ela gritava e chorava, até que de repente Aaron apareceu na porta e gritou com o soldado, que se levantou e saiu, ela ficou no chão, caída, tentando se proteger sozinha.
Ele começou a falar hebraico, mas ela não entendia nada, só chorava e se sentia totalmente vulnerável àqueles homens.
Ele se aproximou dela então e lhe abraçou bem forte, tocando em seus cabelos e falando coisas, que ela não entendia, mas podia sentir tudo o que estava sendo dito.
Ele lutara muito contra esse amor, mas não conseguira escapar, e jamais deixaria outro homem tocar nela.
Até que se beijaram e fizeram amor ali mesmo, um amor transcendental, de corpo e alma, aqueles olhos escuros, aquela barba espessa, tudo nele fazia Liz estremecer e vice-versa, era mútuo, recíproco, era um encontro.

segunda-feira, 23 de março de 2015

sábado, 5 de julho de 2014

Telepatia (amo este assunto)

 Para a pensadora Helena Blavatsky, a única coisa que pode separar duas mentes é a diferença entre os estados de espírito delas, e não a eventual distância física. Ela escreveu:
 
“Não está muito longe o dia em que o mundo da ciência será forçado a reconhecer que pode existir tanta interação entre duas mentes, seja qual for a distância entre elas, como entre dois corpos em contato direto. Quando duas mentes estão harmoniosamente relacionadas e os instrumentos pelos quais elas funcionam estão regulados de modo a responder magnética e eletricamente um ao outro, não há nada que possa impedir  a transmissão voluntária de pensamentos de uma mente para a outra; porque, como a mente não tem uma natureza física, a distância não pode separá-la do objeto da sua contemplação, e a única diferença que pode haver entre duas mentes é a diferença de ESTADO.  Se este obstáculo for removido, onde está o ‘milagre’ da transferência de pensamento, seja a que distância for?” [1]
 
A telepatia inconsciente que liga as mentes humanas está no alicerce da tradicional vigilância dos pais para garantir que os filhos tenham amizades corretas. Se alguém convive com quem tem bons pensamentos, recebe telepaticamente aquela energia.  É verdade que nem sempre é indispensável estar junto a pessoas que pensam corretamente. No Novo Testamento, Jesus se rodeia de pecadores e os inspira e os leva à recuperação moral e espiritual. Um homem bom e sábio tem o poder de irradiar luz e paz ao seu redor, e é protegido por sua própria pureza da contaminação magnética de sentimentos negativos. O clássico budista “Dhammapada” afirma:
 
“Eu chamo de brâmane [sábio] aquele que é amável entre os hostis, suave entre os violentos, e livre de ambições entre os que cobiçam” [2]
 
É pela telepatia inconsciente que, quando estamos com uma pessoa verdadeiramente santa, nos sentimos inspirados e elevados.  Por isso os clássicos Versos de Ouro de Pitágoras  aconselham: “Escolhe como amigo o mais sábio e virtuoso”.
 
 A mente humana é do tamanho daquilo que ela contempla, e nenhuma mente é pequena quando se dedica a metas elevadas.
 
Helena P. Blavatsky afirmou que é difícil encontrar alguém  que não seja influenciado pela vontade ativa de outra pessoa. Ela deu alguns exemplos. Na guerra, quando um oficial que é visto com admiração vai para o front da batalha, os soldados entram em sintonia magnética com ele e compartilham do seu entusiasmo. Seguem-no sem medo, enfrentando o perigo com bravura. Na igreja, o pregador religioso se ergue em seu púlpito e, ainda que diga o absurdo mais incongruente, seus gestos e o tom de lamentação da sua voz serão capazes de produzir uma mudança no estado de espírito do público. No teatro, as pessoas choram ou riem de acordo com o caráter do espetáculo.[5]  Todos nós somos afetados o tempo todo pela vontade, pelos sentimentos e pelos pensamentos dos outros. E também os afetamos.Quando alguém forma descuidadamente uma opinião negativa e inverdadeira de outra pessoa, comete um erro que não ficará impune. Aquele que é sensato evita formar opiniões negativas sobre as pessoas que ama, e também sobre as pessoas de quem não gosta. Todos são influenciáveis em alguma medida. Deve-se ter cuidado com a crítica aberta, se ela for destrutiva. Mas o pensamento negativo que não é falado pode ser ainda pior, porque age de modo desapercebido. Deve-se ver as pessoas com um olhar generoso, e criticar honestamente as atitudes específicas que se considera erradas.
 
A visão geral que temos do outro deve ser positiva pelo menos por dois motivos. O primeiro é que temos motivos para reconhecer que o outro funciona, em parte, como um espelho de nós mesmos. Em segundo lugar, sabemos que cada ser humano possui, assim como nós, um potencial ilimitado para o bem. A crítica deve limitar-se, pois, ao detalhe, ao instante, ao aspecto isolado. Não se deve criticar alguém sem mencionar sinceramente algumas das suas virtudes. Seria pouco inteligente, portanto, esquecer que cada ser humano tem em si a semente da perfeição. Somos todos alunos e professores na escola da vida, e ajudamos a construir o caráter uns dos outros, inclusive através dos processos telepáticos involuntários. 
 Nossos pensamentos, sentimentos e intenções criam uma faixa de sintonia magnética que nos une a tudo e a todos sobre os quais concentramos nossa atenção, e com os quais interagimos em nossa mente.

Os testes e provações serão indispensáveis para que o progresso seja sólido e durável, mas a paz interior passa a estar cada vez mais presente. A mente ganha estabilidade; surge um processo natural de distanciamento dos pensamentos desordenados. O olhar passa a ver mais longe. O céu da sua consciência fica claro e amplo, livre de nuvens e tempestades. É neste momento que a comunhão e a percepção conscientes do pensamento e do sentimento começam a ocorrer sem grandes obstáculos.   

sexta-feira, 16 de maio de 2014






Pensamentos
Vão se apagando como uma fogueira que foi acesa no deserto.
Não sei por que existiram, se são resquícios, uma vaga lembrança de uma vida que passou ou um desejo que não foi vivido...
Sensação de necessidade, incapacidade, resignação e saudade.
Aquela tarde no deserto, o cheiro da fogueira acesa, da areia quente
Que vai esfriando após o pôr do sol
Que deixa o céu com as mais variadas cores, como uma tela que acabou de ser pintada.
As estrelas enchem o céu, que agora é negro
O cheiro da fogueira acesa
O silêncio perturbador que responde tudo que preciso
É possível sentir a areia já fria e a saudade que me corrói.
A fogueira consumiu e lentamente sobe aquela fumaça
Tão lenta como o que compreendo
O cheiro da fumaça se mistura com o cheiro da areia que esfriou
É inexplicável
O silêncio me abraça e eu sinto
Muito!



sábado, 22 de setembro de 2012

A massai branca (Die Weisse Massai)

Impressionante, como pode existir no mundo alguém com a força e a coragem que esta mulher teve, uma pessoa que acreditou no amor visceralmente a ponto de viver uma outra vida, uma mente aberta, uma pessoa iluminada, muito à frente do nosso tempo, infelizmente o seu grande amor não conseguiu acompanhá-la, sua alma e mente ainda não estavam prontos, uma estória real e chocante, para mim nem tanto pela diferença de cultura, costumes e ambiente rudimentar, mas o que me tocou mesmo foi descobrir que existe neste mundo pessoas que têm coragem de se arriscar, de se suicidar para viver intensamente.
http://www.youtube.com/watch?v=SkeLnMpxjBw&feature=relmfu

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O homem Sikh


A visão de um Sikh nunca é algo trivial.
São homens altos, de pele morena, lindos olhos amendoados e o turbante feito com 7 metros de tecido chamam a atenção e nos fazem perdurar o olhar.

Eu nunca ha via visto um Sikh pessoalmente e confesso que minha unica referência era a do do filme 'O Paciente Inglês' interpretado por Naveen Andrews, com o personagem 'Kip'.

Os Sikh tem um orgulho em ser quem são e ostentam isso com uma naturalidade genuína. Os turbantes podem ser de cores e tecidos variados, mas o olhar de Rei é sempre o mesmo.


'Você jamais verá um Sikh pedindo esmolas'
 
'Nós temos saúde e força e iremos trabalhar e sobreviver com honra até o fim dos dias.

Um Sikh tem orgulho de sua estirpe e demonstra isso utilizando os símbolos máximo de sua fé - que se mistura à vida -
- o turbante - para diferenciá-los na multidão e fazê-los lembrar quem são;
- a pulseira de metal ''Kara''- como símbolo de sua fé e exemplo do seu Guru - uma forma circular para lembrar que o universo é infinito, e  toda vez que  levarem a mão à boca para comer ou beber, professar a sua fé lembrando de quem são e de que fé é tão importante quando o alimento;
- o punhal 'Kirpan' - parece-se com um, não dá pra descrever, mas os deixa sempre prontos para a batalhe e é o símbolo de sua força e prestatividade;
- pente- 'Kanga' - trazem sempre consigo, ou no turbante, ou no bolso, reafirma o compromisso com a sociedade Sikh;


- a roupa de baixo é sempre a mesma - mesmo modelo- para lembrar da humildade e origens, independente de poder aquisitivo ou traje de luxo.

Aprendi com esse povo sobre ter orgulho de quem somos e não se envergonhar de suas escolhas.
Um dos momentos de sabedoria Sikh eu pude presenciar em meio a um grupo de pessoas, quando percebi meu amigo Sikh silencioso e, na tentativa de fazê-lo interagir eu disse:''Kammaal e você? Por que não está conversando?" e ele respondeu:

''Se todos estão conversando, quem está ouvindo?''

São pequenas 'pérolas' como essas aliado ao comportamento educado e garboso que me fizeram encantar por esse povo.

A experiência de visitar um templo Sikh  é algo inesquecível.
O dourado impera nos detalhes e apesar de parecer sisudo, é tudo simples e limpo. Há sempre alguém lendo a escritura sagrada dos Sikhs o ''Guru Grand Sahib'', segundo eles a revelação categórica de Deus numa linguagem universal. 
É lindo, independente do idioma, é possível sentir na voz de quem lê o sagrado ali presente. Em qualquer horário, nas 24h sempre haverá alguem lendo e cantando as revelações.

Não tem como separar fé, religião e sociedade.

Para o Sikh tudo está interligado e é maravilhoso presenciar o sagrado em seus gestos, sorrisos e ações.


Por Luciana Arruda

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Tabacaria



    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.

    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...

    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.

    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,

    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.
    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.

    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,

    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.

    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,

    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    Álvaro de Campos, 15-1-1928

terça-feira, 11 de setembro de 2012

  "You are what your deep, driving desire is.  As your desire is, so is your will.  As your will is, so is your deed.  As your deed is, so is your destiny."  - Brihadaranyaka Upanishad IV.4.5

Tradução livre: "Você é o seu desejo, a condução é profunda. Conforme seu desejo, assim é a sua vontade. Medida que a sua vontade é, assim é a sua ação. Medida que a sua ação é, assim é o seu destino."

Ou: O que for a profundeza do teu ser, assim será teu desejo.
O que for teu desejo, assim será tua vontade.
O que for tua vontade, assim serão teus atos.
O que forem teus atos, assim será teu destino.